Foto: Douglas Sheil/Cifor

REPORTAGE

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Cem anos de pandemias

Os povos ind√≠genas do mundo pagaram um pre√ßo alto pelos v√≠rus, doen√ßas e infec√ß√Ķes do colonialismo. A covid-19 n√£o √© exce√ß√£o e os pesquisadores alertam que a pandemia do coronav√≠rus pode deixar feridas dif√≠ceis de curar entre os povos ind√≠genas do mundo. No sul do Brasil, a pandemia de covid-19 significou mais uma trag√©dia para um povo j√° abaixo de ataques pol√≠ticos, econ√īmicos e s√≥cias ‚Äď guaran√≠-kaiow√°.

‚ÄúA covid-19 n√£o significa uma nova condi√ß√£o para n√≥s‚ÄĚ, explica Rosicleide Vilhalva, l√≠der da rede social Retomada Aty Jovem.

Por Klas Lundström

BRASIL A¬†covid-19 paralisa economias, o v√≠rus barricado na√ß√Ķes e a pandemia exige sacrif√≠cios pessoal. A pandemia tamb√©m confirma que os poderosos globais podem agir r√°pida e cabalmente, com consequ√™ncias diretas, quando √© necess√°rio.

Mas, como sempre, n√£o em todos os lugares.

Na Amaz√īnia brasileira, a pandemia exp√Ķe a fragilidade de sistemas de sa√ļde. V√≠timas por uma organiza√ß√£o deficiente, enquanto o covid-19 corr√≥i comunidades isoladas. V√°rios l√≠deres tribais j√° morreram nas su√≠tes do coronav√≠rus, alguns por se recusarem a procurar atendimento m√©dico ‚Äúno mundo afora da floresta‚ÄĚ

Em Brasil, mais de 50.000 casos de covid-19 dentro povos indígenas são confirmados, de acordo de cifras pelo movimento social Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Mais de mil pessoas dos grupos indígenas morreram pelo vírus e o coronavírus já se infiltrou 163 povos diferentes.

Cont√≠nuo ataques dos ‚Äúgrilheiros‚ÄĚ

No sul de Brasil, pela fronteira com Paraguai no estado Mato Grosso do Sul, o clima socioecon√īmico e pol√≠tico continua a ser frio. Aqui, a pandemia n√£o aliviou o apetite por terra dos produtores de soja. ‚ÄúOs grilheiros‚ÄĚ ‚Äď ladr√Ķes de terra muitas vezes pagado pelos fazendeiros ‚Äď continuam a roubar a terra nas m√£os de guaran√≠-kaiow√°.

‚ÄúOs grilheiros‚ÄĚ v√™m a noite, antes do amanhecer, sempre protegido no escuro. Raios de tiros. Medo e p√Ęnico. A vida de homens, mulheres e crian√ßas s√£o questionadas ‚Äď as pessoas j√° vulner√°veis ‚Äč‚Äčt√™m sua exist√™ncia questionada.

‚ÄúNossas terras continuam a ser roubados e arrancados. Deste sentido, tudo continua igual ‚Äď apesar da pandemia‚ÄĚ, Tonico Benites, antrop√≥logo e l√≠der da comunidade Apy Ka‚Äôy, explica pela Revista Global.

Ladr√Ķes de terra de Mato Grosso de Sul √© uma ocupa√ß√£o que n√£o sofre nenhum ‚Äúchoque corona‚ÄĚ. Os trabalhos dentro a ind√ļstria de roubar terras dos povos ind√≠genas s√£o seguros com o exigem eterna por terra para cultivar soja.

‚ÄúAo contr√°rio, a covid-19 piorado muito‚ÄĚ, diz Tonico Benites.

Terras históricas, bosques desaparecidos

Aqui, no cora√ß√£o do America do Sul, espalhou a Mata Atl√Ęntica. Uma enorme cobertura florestal da costa atl√Ęntica √† terra quente e seca do Chaco, perto dos p√©s dos Andes, por meio de savanas localizadas no centro.

Mas todo isso foi antes da chegada da Revolu√ß√£o Industrial ‚Äď e a consequ√™ncias de longo prazo da Guerra do Chaco, entre 1932 e 1935.

Ind√ļstrias e grandes metr√≥poles rapidamente remodelaram as condi√ß√Ķes de vida da ecologia, dos animais e dos humanos. Agora √© uma terra colonizada pelo cultivo de soja em grande escala.

Todos os espelhos históricos parecem ter sido quebrados e ninguém mostra nenhum interesse em aprender com a história. Nem o Brasil, nem o Paraguai, nem o mundo exterior que mantém viva a demanda por soja.

Particularmente notável foi o vento da mudança para o guaraní-kaiowá. Durante o Século 19, suas terras foram divididas ao meio quando a fronteira entre o Brasil e o Paraguai cortava como uma faca as florestas e as margens dos rios. As reformas agrárias mais tarde efetivamente limparam hectare após hectare do guaraní-kaiowá e transformaram o Mato Grosso do Sul em uma das zonas pecuárias mais importantes do Brasil.

Pragas plantadas

Durante a ditadura militar entre 1964 e 1985, o genocídio de guaraní-kaiowá contínuo, come o genocídio de povos indígenas do Brasil em geral.

V√≠rus potencialmente letais como o covid-19 podem ser disseminadores t√£o eficazes quanto as inje√ß√Ķes em ambientes apertados e na pobreza. Os v√≠rus ganham uma posi√ß√£o mais f√°cil e, al√©m dos riscos √† sa√ļde aceitos pelo v√≠rus covid-19, tamb√©m atingem a ansiedade, o estresse e aumentam o isolamento de grupos √©tnicos j√° vulner√°veis.

Em 2016, uma onda de gripe suína varreu as comunidades densamente povoadas de guaraní-kaiowá no Mato Grosso do Sul, e causou muitas mortes.

‚ÄúCovid-19 n√£o √© a √ļnica pandemia para n√≥s, os guaran√≠-kaiow√°. Somos for√ßados a atravessar e tentar sobreviver e nossa situa√ß√£o de emerg√™ncia surgiu muito antes de o resto do mundo parecer experimentar ‚Äėuma situa√ß√£o de emerg√™ncia‚Äô‚ÄĚ, Rosicleide Vilhalva, l√≠der da rede social Retomada Aty Jovem, explica a Revista Global.

A pandemia covid-19 não pode ser comparada com a onda de influenza de 2016, o curso da doença do coronavírus é semelhante ao da gripe suína.

‚ÄúAs doen√ßas infecciosas e parasit√°rias est√£o entre as principais causas de morte entre os ind√≠genas brasileiros ‚Äď especialmente em compara√ß√£o com o restante da popula√ß√£o do pa√≠s ‚Äď por serem mais suscet√≠veis √†s doen√ßas respirat√≥rias‚ÄĚ, escrevem os escritores da publica√ß√£o.

O preço de exclusão

Em sociedades onde o isolamento pol√≠tico e socioecon√īmico domina a vida cotidiana, as pandemias chegam n√£o apenas sob a forma de fantasmas do passado. Mas talvez principalmente como profecias agourentas sobre um futuro sombrio.

‚ÄúO v√≠cio em v√°rias formas, como √°lcool e drogas, era um problema generalizado e grave mesmo antes de covid-19 ‚Äď mas agora a situa√ß√£o √© ainda pior‚ÄĚ, afirma Tonico Benites.

O isolamento leva à perda de empregos e renda que prolonga o ciclo depressivo ao final do qual poucos vislumbram qualquer esperança.

‚ÄúN√≥s, os guaran√≠-kaiow√°, somos invadidos em todas as frentes‚ÄĚ, diz Rosicleide Vilhalva.

Entre 2001 e 2018, 14 militantes da terra foram assassinados, n√£o raramente em suas casas ‚Äď depois de travar uma luta aberta pelo direito do guaran√≠-kaiow√° √† terra de acordo com a constitui√ß√£o brasileira de 1988.

Muitas crian√ßas crescem em condi√ß√Ķes miser√°veis ‚Äč‚Äče as dificuldades dos pais, na forma de abuso e desemprego, muitas vezes levam a uma desnutri√ß√£o grave, √†s vezes at√© a uma fome aguda.

‚ÄúCovid-19 piorou uma situa√ß√£o j√° grave. Isso fez com que muitos, principalmente as mulheres, ficassem mais isolados e expostos a amea√ßas e viol√™ncia dom√©stica‚ÄĚ, diz Rosicleide Vilhalva.

Dos investimentos prometidos ‚Äď por exemplo po√ßos de √°gua limpa, livre de toxinas e lama das planta√ß√Ķes de soja pr√≥ximas ‚Äď os moradores das comunidades cada vez menores de guaran√≠-kaiow√° n√£o viram nada, explica Tonico Benites.

‚ÄúNingu√©m se importa conosco‚ÄĚ, ele diz.

‚ÄúErrado ‚Äď n√£o importa como fa√ßamos‚ÄĚ

Em tempos de programas de vacinação ocorrendo em vários países no mundo, principalmente nas partes ricas, muitas pessoas já pintaram uma vida do outro lado do covid-19.

Socializar, viajar, tomar um café. Uma vida de movimento.

Para o guaraní-kaiowá, o isolamento da pandemia do coronavírus certamente foi um grande desafio, mas mesmo assim é descrito em muitos aspectos como um reforço de uma realidade cimentada.

Do outro lado da covid-19, ao longo da fronteira entre o Brasil e o Paraguai, as terras tradicionais continuam encolhendo como resultado do roubo de terras, abuso e racismo estrutural que mant√©m muitos bem longe de trabalho e oportunidades ‚Äď deixados na pobreza e mis√©ria.

Assim, a pandemia n√£o √© o √ļnico obst√°culo pelo guaran√≠-kaiow√° para um mundo melhor e mais saud√°vel, explica Tonico Benites.

‚ÄúA pandemia colocou as coisas na linha de frente. Se as pessoas quebrarem as restri√ß√Ķes e tentarem trabalhar juntas para arrecadar dinheiro para comida, elas correm o risco de serem infectadas com covid-19 e infectar o resto de suas fam√≠lias. Se, por outro lado, forem obedientes e seguirem as restri√ß√Ķes e ficarem em casa e se isolarem, a fome e o desespero v√£o piorar. Est√° dando errado, n√£o importa o que eles fa√ßam‚ÄĚ, diz o antrop√≥logo.

Chamadas de ajuda ignoradas

Na primavera de 2020, v√°rias associa√ß√Ķes do guaran√≠-kaiow√° ‚Äď a Assembleia Geral Aty Guasu, o movimento feminista Kunangue Aty Guasu e o movimento juvenil Retomada Aty Jovem ‚Äď se uniram e gritaram por ajuda ao mundo exterior. A mensagem foi que a infec√ß√£o do coronav√≠rus se espalho como um inc√™ndio sem nenhuma interven√ß√£o das autoridades brasileiras.

‚ÄúPedimos ajuda, mas at√© agora ningu√©m apareceu‚ÄĚ explica Tonico Benites, um dos autores da mensagem de emerg√™ncia.

Casos de covid-19 continuam a ser documentados entre os guaran√≠-kaiow√°, principalmente gra√ßas da documenta√ß√£o por pessoas como Tonico Benites, menos pelo trabalho das autoridades. Uma decis√£o do Supremo Tribunal Federal do Brasil em agosto de 2020 determinou que o governo do presidente Jair Bolsonaro deve que melhorar a prote√ß√£o dos povos ind√≠genas de covid-19 ‚Äď mas Brasil √©, em mar√ßo 2021, um pa√≠s com quase 12 milh√Ķes de casos documentados de coronav√≠rus, e 285 mil de mortes.

Rosicleide Vilhalva olha para o mundo exterior. Para um horizonte incerto. Para um fundo de decis√Ķes coloniais. E consequ√™ncias. No S√©culo 17, a administra√ß√£o colonial espanhola em Buenos Aires exigiu um aumento nas importa√ß√Ķes de escravos, uma vez que a var√≠ola acabou com o trabalho for√ßado dom√©stico.

Para as atuais áreas de fronteira entre o Paraguai e o sul do Brasil e sua outrora população guarani dominante, no entanto, foram os missionários que trouxeram com eles sentenças de morte na forma de poxvírus.

‚ÄúOs jesu√≠tas, uma associa√ß√£o mais adequada a n√ļmeros exatos do que a maioria, estimaram que 50.000 morreram nas esta√ß√Ķes mission√°rias do Paraguai na epidemia de 1718, 30.000 nas aldeias Guaran√≠ de 1734 e 12.000 em 1765‚ÄĚ, o autor Alfred Crosby escreveu em ‚ÄúImperialismo Ecol√≥gico‚ÄĚ, publicado em 1986.

Ondas de suicídio

√Č um pouco ir√īnico, diz Rosicleide Vilhalva, que o mundo agora entende a exist√™ncia pandemias. Talvez porque a sociedade individualista de repente se veja questionada e desafiada da mesma forma que por muito tempo constituiu a realidade pelo guaran√≠-kaiow√°.

Talvez porque certas formas de vulnerabilidade não possam ser compreendidas até que a pessoa se veja exposto a elas.

O isolamento e as paredes erguidas do mundo exterior em muitos aspectos abusaram severamente da comunidade interna que manteve o guaran√≠-kaiow√° vivo ao longo de uma hist√≥ria contempor√Ęnea repleta de genoc√≠dio em andamento. Roubo de terras, racismo estrutural e degrada√ß√£o cultural s√£o ‚Äúelementos centrais‚ÄĚ da ordem capitalista que permeia o Brasil moderno, escreve Ant√īnio Augusto Rossotto Ioris, ge√≥grafo humano da Universidade de Cardiff, em Revista Sage.

Muitos jovens n√£o t√™m for√ßas, e suicidam-se. Muitas vezes na forma de ‚Äúondas suicidas‚ÄĚ. Outros caem no v√≠cio, outros desaparecem e nunca mais se ouvem falar deles. Em todos os casos, s√£o trag√©dias pessoal e pelas fam√≠lias afetadas.¬†

‚ÄúN√≥s, os guaran√≠-kaiow√°, vivemos em uma pandemia cont√≠nua desde o in√≠cio da moderniza√ß√£o do Brasil. A covid-19 n√£o significa uma nova condi√ß√£o para n√≥s ‚Äď apenas √© uma vers√£o pior da realidade que j√° existe‚ÄĚ, afirma Rosicleide Vilhalva.

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